Ivana de Arruda Leite indica “Os Malaquias”

Rafael Munduruca em 17/08/10

Imagem de Amostra do You Tube

Ivana de Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba. É escritora e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Escreveu durante muito tempo sem ser publicada, até que conheceu o escritor Marcelino Freire, que se encantou com sua obra. É autora de dois romances “Alameda Santos” e “Hotel novo mundo” e dos livros de contos “Histórias da mulher do fim do século”, “Falo de Mulher”, “Ao homem que não me quis”, entre outros. Em 2004 foi colunista da revista da Folha, do jornal Folha de São Paulo. Ela está no blog doidivana.wordpress.com

Andréa del Fuego é mineira de Carmo do Rio Claro, radicada em São Paulo. Nascida Andréa Fátima dos Santos, teve uma coluna na Revista da Rádio 89FM, respondendo a dúvidas sexuais dos leitores. Nessa ocasião, adotou o pseudônimo Andréa del Fuego. Já trabalhou com cinema e teatro. Segundo ela, inventa desde menina – das anotações em cadernos às cartas para os parentes. Um dia uma das cartas não saiu de casa, porque o remetente era desconhecido – foi o início da ficção. É autora de “Os Malaquias” e “Minto enquanto posso”. Está nas antologias “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”, “Uma Antologia Bêbada” e “+ 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira”. Mais em seu blog andreadelfuego.wordpress.com.

Imagem: Rafael Munduruca

Ivana Arruda Leite

Imagem: divulgação

Andréa del Fuego

O depoimento de Ivana de Arruda Leite foi registrado durante a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande do Sesc.

Os Malaquias – Andréia del Fuego
Romance – Editora Língua Geral, maio de 2010.

Capítulo 1

Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como mamíferos silvestres. As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.

Orelha

Se um nome define aqueles que o carregam, então Malaquias é nome de gente viva. No intrincado novelo de histórias que constituiu o romance de Andréa del Fuego, cada personagem é uma pessoa. A vida é-lhes soprada por aquilo que é matéria da literatura: a linguagem, os nomes. Aqui, as palavras têm cheiro e sabor, podem ser sentidas com a ponta dos dedos, possuem temperatura. As páginas que acompanham os Malaquias, que os fazem nascer, viver e morrer diante de nós, são feitas de assuntos infinitos – terra, céu – são feitas de distância e de aqui. Aqui mesmo, o teu rosto, o meu rosto, nós.

“Vida” é uma palavra grande, constituída por palavras grandes, nestes capítulos, nestes anos, Andréa del Fuego não teme nenhuma delas, mistura-as com a natureza: natureza humana e natureza-natureza. Por essa via, as personagens vivem, o mundo destas páginas vive e nós, leitores de milagres, vivemos também. Somos parte dessa mesma natureza, existimos nesse mesmo tempo de gerações, de bênçãos ou maldições eternas, esse tempo como um raio que fulmina ou como água que afoga, também nós somos donos de uma memória, que é do tamanho da Fazenda Rio Claro, pelo menos.

Vale a pena ler Os Malaquias para sabermos de nós próprios. Um dia, depois de tudo, se estivermos à altura da vida, cada uma das nossas histórias fará parte de uma vertigem como a que é descrita nestas páginas. Então, talvez possa haver leitores a se emocionarem, a se sobressaltarem, a se deslumbrarem, como acontece ao longo desta obra magistral de Andréa del Fuego.

José Luís Peixoto

Os trechos da obra, publicados acima, foram extraidos do blog de Andréa del Fuego.

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