“Superinteressante” é fazer a diferença

Rafael Munduruca em 21/09/10

Era uma vez um jornalista que trabalhava em uma grande corporação, era lido por milhões de pessoas e ganhava muito dinheiro por isso. Um belo dia, esse jovem profissional realizou uma longa viagem para um outro mundo. Teve a oportunidade de conhecer outras utopias e propostas de vida, e se transformou. Ao voltar para o mundo em que vivia, foi surpreendido pela vontade de falar menos, mas com mais significado, desenvolvendo relações de maior qualidade. Foi então que este jornalista começou a buscar projetos que tocassem pessoas. E assim, hoje ele segue vivendo feliz.

Essa história não é uma fábula. E foi contada, em outras palavras, pelo próprio protagonista que a vivencia – Denis Russo Burgierman. Ele tem 37 anos, é filho e neto de pinheirenses, e por mais de dez anos foi editor da revista Superinteressante, a segunda maior revista mensal em circulação do Brasil, com cerca de dois milhões de leitores. Um público fiel, espalhado por todo o Brasil e de todas as classes sociais. Denis conta que em toda sala de aula você encontra um leitor da Super. “Não é um tipo de interesse, é um tipo de gente que lê isso”. E ele era reconhecido por esse pessoal.

Imagem: Acervo/Denis Russo

Denis, de pedal na Califórnia.

Em 2007, Denis foi um dos poucos jornalistas do mundo escolhidos para receber uma Knight Fellowship (um dos mais disputados programas de bolsa para editores), o que lhe abriu as portas para um ano como pesquisador convidado da Universidade de Stanford, na Califórnia. Entre outras coisas, estudou tecnologia, negócios e contracultura. Foi nesse período também que mergulhou no ativismo ciclístico da Critical Mass – atualmente ele não tem carro e circula de bicicleta pela cidade.

Fazendo a diferença

Quando voltou, em 2008, a viagem e o estudo haviam lhe imprimido uma mudança na rotina, que começou a se impor. Ele negociou com a Editora Abril e passou a trabalhar de casa, e foi cada vez mais se afastando da rotina corporativa.

Com o tempo, Denis passou a sentir que muito mais relevante do que ter milhões de leitores é perceber que fez a diferença para uma pessoa. “Uma coisa que a arte tem, é quando você está vendo um filme e tem uma hora que te arrepia, uma hora que toca em você de algum jeito. Pra mim, a viagem com o jornalismo é a mesma coisa. Não é o trabalho genial, é aquele parágrafo que faz sentindo pra alguém. Que gera empatia. E é isso que eu quero fazer. E eu fico achando que fazer isso vai ser mais possível, no mundo aqui fora, talvez com menos abrangência, talvez atingindo menos gente”. Percebeu que haviam possibilidades para fazer coisas novas e interessantes, e que isso estava fora da grande mídia.

Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de trabalhar com a Webcitizen, empresa criada por Helder Araújo, que tem como proposta a disseminação de informações para fomentar o engajamento cívico. Trata-se de um novo ramo profissional, que tem seus rumos discutidos e revistos a todo momento, o que, segundo Denis, às vezes traz saudades da estrutura por traz da grande corporação. Mas tem a sensação de que antes estava fazendo a história dos outros, e que agora está construindo coisas novas.

“Eu não sou um multitasker”

Denis é um cara que gosta e precisa de foco. “Eu não sou um multitasker. Não sou um cara que gosta de fazer três coisas ao mesmo tempo. Isso me deixa angustiado e infeliz”, afirma. Ele conta que seus momentos profissionais mais felizes foram quando estava escrevendo livros. Pesquisando um assunto só. Passava dias inteiros de trabalho deitado numa rede lendo livros.

Pra gente como eu, que gosta de focar, a internet é mais um gerador de ansiedade do que qualquer outra coisa. Você diz ‘hoje eu quero me aprofundar nesse tema’, e tem um monte de coisas piscando, apitando, assobiando, te chamando atenção, um monte de novidades, um monte de demandas, e aí, eu não consigo mergulhar na coisa.

Denis acha a internet de hoje muito ruim. Acredita que no futuro vamos olhar para a internet do início do século XXI, e falar: “nossa, que ‘tosqueira’ que era aquilo”. Para ele, algumas ferramentas como o iphone (o qual ele já tem) e o ipad permitem que as pessoas estejam conectadas de um jeito um pouco mais natural.

Imagem: Cia. de Foto.

Denis em trabalho de campo, no nordeste.

Seu dia a dia é ficar inventando e encontrando pessoas. “Agora é falar pra menos gente, de um jeito mais restrito. Dá pra ter mais significado para essas pessoas. Porque é mais inovador. É mais novo. É um caminho diferente.”

Questionado se hoje, que ele não está mais em uma grande corporação, consegue trabalhar mais focado, a resposta foi não: “eu trabalho com mil coisas”. Mas, segundo ele, focar é a meta. “E enquanto tenho essa meta, eu tenho cada vez mais coisas. Enquanto eu quero achar essa única coisa que eu quero fazer e, para achá-la, eu tenho que estar aberto para novas coisas. E cada vez eu tenho mais projetos”. Ele quer ser igual aos diretores de cinema, que tem um projeto de cada vez. “É um cara que tem uma obsessão por vez, e troca de obsessão a cada ano.”

Seus projetos

Como ele não sabe dizer não para coisas legais, atualmente está em “pelo menos meia dúzia de projetos”, conheça três deles:

TEDx São Paulo - Realizado em novembro de 2009, reuniu mais de 30 pensadores de áreas de conhecimento tão diversas quanto arte e tecnologia, ciência e negócios, para falar sobre suas melhores ideias em palestras com duração de 5 ou 15 minutos. O tema da primeira edição do evento foi: “O que o Brasil tem a oferecer ao mundo hoje?”. No site tedxsaopaulo.com.br é possível assistir as palestras. Abaixo, um vídeo com a fala de Denis no TEDx São Paulo.

http://www.vimeo.com/8414210

TEDx Amazônia – Reunirá mais de 50 pensadores, seguindo a mesma proposta do TEDx São Paulo. O tema desta primeira edição do evento será: “Qualidade de vida para todas as espécies do planeta”. Este evento acontecerá nos dias 6 e 7 de novembro de 2010 e será gratuito. As inscrições podem ser feitas no site tedxamazonia.com.br.

Imagem: Cia. de Foto.

Denis (dir.) e a equipe do site "Isso não é normal".

Isso não é normal - Um site (http://issonaoenormal.com.br/) criado através de uma parceira entre a Webcitizen e a Cia. De Foto, com apoio do Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DFID) do governo britânico e veiculado pelo Estadão. Este site apresenta três estudos de caso sobre mudanças climáticas no Brasil e as formas de se preparar para minimizar seus efeitos negativos. Para estes estudos foram escolhidos uma cidade (São Paulo), um estado (Santa Catarina) e uma região (Nordeste). O site apresenta uma grande variedade de abordagens: reportagens, relatórios, links, documentários, animações, ensaios fotográficos, insights, infográficos, mapas, etc.

Denis é, ainda, autor do blog Sustentável é pouco, publicado pela Veja.com.

Gostou desta notícia?
Assine aqui a newsletter do VilaMundo e receba o melhor da Vila Madalena no seu e-mail.

Notícias Relacionadas