Jonas Worcman, um menino que joga com palavras
Jonas Worcman tem 15 anos. Como a maioria dos garotos de sua idade, ele adora jogar futebol, ir ao cinema e andar de bicicleta. É são-paulino fanático e vai ao estádio sempre que pode. Para ele, uma das disputas mais emocionantes foi a final da Libertadores de 2005, na qual o seu time de coração bateu por 4 x 0 o Atlético Paranaense.
Até aqui, nada de mais. Seria um garoto comum, se não fosse o fato de que ele ama a Poesia e já tem dois livros e um e-book publicados.
O pai do adolescente tem “culpa” nisso. José Santos é escritor e já publicou dez livros. Um modelo e tanto para o filho, que fala dele a todo momento com um certo brilho nos olhos.
Sempre que José estava em processo criativo apresentava a Jonas os poemas que ia produzindo, e só os publicava se fossem aprovados pelo garotinho. Até que um dia, ainda criança, criou o seu primeiro poema chamado “Coca Caracola”, que conta a história de um caracol que se escondia dentro de sua carapaça para tomar a coca caracola.
Artesanais, digitais e impressos
As primeiras poesias de Jonas foram criadas quando ele tinha apenas sete anos. Certa vez, ele estava jogando futebol no videogame (São Paulo x Grêmio) e decidiu fazer rimas para os jogadores. Quando o pai chegou em casa não teve dúvidas, resolveu montar um livrinho chamado “Perguntas da Bola”, distribuído aos colegas presentes em seu aniversário de oito anos.
Dois anos se passaram e ele criou o “Perguntas da Bola 2”, desta vez com poemas apenas dedicados a seu tão amado São Paulo. Após algum tempo, o pai de Jonas conversou com o pessoal do Cronopinhos, um site sobre literatura juvenil, firmando então uma parceria para a publicação do e-book “Perguntas da Bola 3”. E, segundo Jonas, mesmo que sem querer, a obra foi a primeira digital dirigida ao público infantojuvenil no Brasil.
Para ler o e-book de Jonas, basta clicar na imagem.
Os dois primeiros livros impressos nasceram de parcerias com o pai. Em uma viagem, Jonas, então com dez anos, escreveu cerca de três ou quatro poemas e o pai acabou criando os demais. Assim nasceu o livro “A Casa do Franks Tem”. Entre o momento em que o livro terminou de ser escrito e sua publicação se passaram três anos.
Dentre os poemas presentes na obra, se destaca “Futebol assombrado”. Paixão comum entre pai e filho o tema se tornou o favorito. Também, por perceberem que o futebol nunca é contemplado no mundo da poesia.
Foi então que surgiu “Show de Bola”. O livro é dividido como num jogo de futebol: primeiro tempo, intervalo, segundo tempo e prorrogação. No capítulo “intervalo” há breves biografias dos jogadores e adivinhas. Já em “prorrogação” há um pequeno dicionário de verbetes sobre futebol em forma de poemas. Nos demais, muita poesia.
O prefácio foi escrito por ninguém menos do que Raí, ex-jogador do São Paulo, e a obra foi lançada na Bienal do Livro deste ano. Jonas conta que participar da Bienal foi uma oportunidade única: “Pude conhecer alguns editores e escritores que eu admira, como Maurício de Souza e Ziraldo”.
Criação e Inspiração
Jonas trabalha com dois processos: inspiração e transpiração. Às vezes acorda ou senta na praia e escreve várias poesias de uma vez. Mas tem dias em que não consegue escrever uma única palavra. “Inspiração, é sério, esse negócio existe”. Aos poucos está desenvolvendo novas técnicas. Começou a fazer alguns exercícios para compor a partir de palavras soltas, se forçando assim a criar.
Quando se exercita, os políticos não escapam das garras do menino. Certa vez, escreveu xingando um ex-candidato a presidente… Quanto às meninas, não adianta pedir poema especial não, Jonas só escreve quando quer. Apesar dos pedidos, ele lamenta: “não é porque sou poeta que elas me dão mais atenção”. Ele ainda perde espaço para os garotos moderninhos com cortes de cabelo inspirados no do famoso Justin Bieber. Tímido, ele conta que já escreveu para uma garota em especial. Poema esse que nunca saiu da gaveta.
De escritor para leitor
Jonas afirma ser um bom leitor. Entre seus autores preferidos estão Dostoievsky e, claro, muita poesia, passando por Ricardo Azevedo e Paulo Leminsky. Seu livro de cabeceira é “Garrincha – Estrela Solitária”, de Ruy Castro.
Quando se apaixonou pela leitura, Jonas lia quase que apenas as produções do pai, fazendo então com que seus poemas sofressem influência evidente. Quando passou a frequentar a biblioteca da escola e da sua casa, começou a conhecer outros autores e a escrever outros tipos de poesias.
O garoto promete que seu próximo livro terá um estilo bastante diferente. Como sua escrita é voltada ao publico infantojuvenil, ele está devorando os livros desse gênero, para se aproximar do estilo dos autores conhecidos e saber o que já foi escrito.
Na sala de aula
Jonas estuda na Escola da Vila, inicialmente localizada na Vila Madalena e hoje instalada em Taboão da Serra. Lá, tem poucos amigos que lêem como ele. Alguns estão conhecendo obras de Jorge Amado e livros de curiosidade. Muitos lêem apenas o que a escola pede. E tem aqueles outros, que nunca lêem.
Surpreendetemente, em Língua Portuguesa, sua notas estão na média, entre 6 e 7. E o pior, quando comete algum erro gramatical, ainda é obrigado a ouvir: “e olha que já tem livro publicado…”.
O menino conta que não é bom em redação e nem mesmo em poesia! E mais, acredita que a forma como a Língua Portuguesa e a Literatura são apresentadas na escola é “muito chata e desinteressante”, e é por isso, que segundo ele, acaba se desconcentrando. “Meu verdadeiro professor de Literatura é meu pai”.
Tenho amigos que são como eu. Mas são poucos. A única diferença entre nós, é que eu publiquei livros e eles tem bandas. Já da galera que está na onda Justin Bieber, aí sim eu me considero muito diferente.
Tirando a professora de português, todos na escola já leram os seus livros. E ele não esquece dos verdadeiros amigos não. Muitos deles são homenageados em seu último livro, e no lançamento na Bienal todos eles acabaram comprando um exemplar. O livro “Show de Bola” está chegando nas livrarias agora.
Sobre o futuro
Jonas já está planejando seus próximos livros. Um deles terá os Beatles como tema e o outro será sobre comida, ambos em parceria com o pai. A sua primeira publicação como único autor deverá ter como tema o São Paulo Futebol Clube. O livro já está sendo preparado.
E pra quem pensa que poeta vive no mundo da lua, Jonas tem o pé bem cravado no chão. Ele não pretende viver de livros: “O valor das vendas é muito baixo e inviável. Talvez, com o livro digital, dê para ganhar melhor”. Escrever poderá até mesmo se tornar apenas um de seus hobbies. Jonas já pensou em ser jornalista, mas agora está decidido: será cineasta!.
Colaborou: Isabelle Claudel









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