Paulo Caruso: uma trajetória de vida desenhada pela Vila

Rafael Munduruca em 01/03/11

Imagem: Rafael Munduruca

Paulo Caruso, entre instrumentos musicais e o escritório no qual cria seus desenhos.

“Eu tinha uma vizinha, a Dona Nazareth, uma senhora com os seus 70 anos de idade. Mostrei pra ela o escafandrista que eu tinha desenhado logo depois de assistir o filme ‘20.000 Léguas Submarinas’. Ela olhou e falou: ‘Oh, que lindo macaquinho!’. Foi aí que eu decidi que precisava aprender a desenhar melhor um escafandro para que não parecesse um macaco”, conta Paulo Caruso ao relembrar a infância que passou na casa onde hoje fica o Boteco São Bento, na Vila Madalena.

Cartunista conhecido na TV e na mídia impressa, músico prestigiado dos bares da Vila e irmão gêmeo de Chico, também cartunista, Paulo Caruso vive no bairro há 59 anos, desde quando tinha dois anos de vida. “Virou uma teimosia continuar vivendo por aqui.” Já o irmão, “agora é carioca”.

Imagem: Rafael Munduruca

A avó Joana e a mãe Marina na frente da casa da rua Mourato Coelho.

No número 1060 da rua Mourato Coelho, Dona Marina criou praticamente sozinha seus filhos Chico e Paulo. Vez por outra os avós vinham ajudar. “Meu avô, que era pintor amador, pegava na mão da gente com quatro, cinco anos de idade e nos ensinava a desenhar. Ele sempre nos estimulou e nós nunca paramos.”

Entre as influências estão o Amigo da Onça da revista O Cruzeiro nos Anos 50, revistas em quadrinhos como Bolinha e Luluzinha e personagens da Disney – Pato Donald, Mickey, entre outros. O cinema e o desenho animado na TV também eram estimulantes, tanto que “um dos primeiros desenhos que fiz era de um cowboy”, lembra Caruso.

Ao comparar seu trabalho com o do irmão, Paulo conta que “as diferenças estão todas dentro das semelhanças. Os meus desenhos sempre foram mais prolixos, os do Chico mais concisos”. O traço de ambos é muito influenciado pelo desenho norte americano, uma escola bastante naturalista.

Transformações na vida e na Vila

O pré-primário e o primário foram feitos no Colégio Machado de Assis, que ficava na rua Simão Alvares, perto da Teodoro Sampaio. No ginásio, foram estudar no Colégio Meira, nos Jardins, “um colégio de gente rica”.

Entre 14 e 15 anos, surgiram as primeiras namoradas. Paulo conta que o primeiro beijo de verdade aconteceu no escurinho do Cine Fiametta (atual Cine Sabesp). A namorada em questão era moradora da rua Belmiro Braga. Nesta fase, os irmãos Caruso foram estudar o Científico (atual ensino médio) na Escola Estadual Carlos Maximiliano Pereira do Santos, o Max. Entre as lembranças, professores que considera inesquecíveis: “um de Desenho Geométrico que, além de excelente professor, quebrava a rotina e nos ensinava a questionar (…) e outra de Português, maravilhosa, Guiomar Karan, que nos estimulava a fazer o que a gente gostava, sem levar em conta as pressões familiares”.

Paulo conta que quem estudava ali eram pessoas que moravam no bairro. Hoje, ele e outros ex-alunos estão voltando a interagir com a escola – ele faz palestras sobre humor e história e ajuda a formar uma biblioteca – e percebe que este quadro mudou muito. “Os alunos vêm de longe. O bairro se tornou um local de alto poder aquisitivo, proibitivo para quem mora na periferia. A classe média daqui estuda em colégios mais ricos.”

Imagem: Rafael Munduruca

A Vila pela janela de Paulo Caruso - A praça atrás do Fórum de Pinheiros.

Com 17 anos, os irmãos Caruso iniciaram a vida profissional, cada um desenhando em um jornal. O começo da vida no mundo do trabalho coincidiu com um período marcante da história do Brasil, a ditadura militar. “Caras mais antigos como Jaguar, Ziraldo, Henfil, Millôr, que já estavam mais em evidência, acabaram indo em cana.” Essa época marcou também o início da “cara cultural” da Vila Madalena.

Em 1968, a consolidação da Cidade Universitária num local próximo ao bairro trouxe estudantes. “Mais jovens, um lado mais cultural e mais bares”. As repúblicas representaram algo importante para a mudança de comportamento desses estudantes, que passaram a viver longe das famílias. “Uma época de sexo, drogas e rock’n'roll. (…) Logo depois vieram as galerias de arte, se eu não me engano, a Fortes Vilaça foi uma das primeiras. Em seguida, surgiu a Livraria da Vila.”

O músico

Paralelo a todos esses acontecimentos, estimulado pela mãe “que amava música”, Paulo teve uma formação musical. Ainda na infância surgiram suas influências que vão de Elvis Presley a Beatles. Ganhou uma guitarra e junto com seus amigos e vizinhos montou seu primeiro conjunto chamado Rock Garage.

Imagem: acervo pessoal/Paulo Caruso

O amigo William, com Paulo Caruso.

Quando começou a Bossa Nova e foi apresentado às “possibilidades inesgotáveis” do jazz, passou da guitarra para o piano. “Descobri um novo mundo, do improviso e da harmonização.” Na Vila, já tocou em bares como Piratininga, Gargalhada, Avenida e o Vou vivendo.  Os irmãos Caruso chegaram a se apresentar no Auditório do Ibirapuera. Eles têm uma banda multi-estadual chamada Conjunto Nacional. Integram este grupo, o cronista Fernando Veríssimo e o cartunista Aroeira. “Eu me divido muito entre o desenho e a música, mas nunca fiz um salto para a música.”

Imagem: Rafael Munduruca

Material de trabalho.

Eterno cartunista

“Continuo usando meu material que é lápis, papel, tinta naquin, lápis aquarela, borracha, uma porção de coisas que hoje os artistas já não usam mais. Hoje o pessoal desenha direto no tablet, mas eu sou ainda de pegar o touro à unha. Sou conservador nessa questão. Os meus originais são originais mesmo, desenhados.”

No caso dos trabalhos que produz para a revista Época, Paulo conta que desenvolve  juntamente com o departamento de arte da publicação. “Às vezes eu faço as figuras separado e eles montam como eu quero, aplicam no Photoshop e colocam uma sombra.”

Imagem: Paulo Caruso

Benedito Calixto e sua praça.

Sobre as coisas que produz e não publica, contou que desenha o tempo inteiro: “Vou a bares e fico desenhando os garçons. E tenho mania de caderno de viagem”. Em uma maleta, Paulo guarda verdadeiros tesouros: cadernos em que registrou viagens realizadas à França. E que, quem sabe, poderão ser publicados um dia.

Imagem: Rafael Munduruca

Paulo e a sua mãe.

Álbum de Família

Até o dia 12 de março o Boteco São Bento, localizado na rua Mourato Coelho, 1060, Vila Madalena, recebe a exposição “Casa da Mãe Marina e da Vó Joana”, que apresenta fotos históricas da família Caruso no bairro.

Paulo disponibilizou ao VilaMundo uma série de fotos antigas de sua família. Para conhecer essas fotos dos irmãos Caruso, acesse a nova subeditoria do nosso site, Álbum de Família.

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Comentários (3)
Cyril Maurice Warren 1 de março de 2011 às 19:01

Moro em Maringá desde 1980, tenho 60 anos e até essa data morei no Sumarezinho e vivia a pé entre o bairro e o colégio São Luiz onde me formei, e estudei psicologia na PUC. É um prazer ler notícias da Vila daqui desta cidade e sentir-me próximo após tantos anos. Sucesso a vocês e muito obrigado.

Nome Maria Balé 6 de setembro de 2011 às 21:35

Primeiro, adorei este veículo de mídia. Muito bom! Quanto ao artigo sobre um dos maiores cartunistas que o Brasil tem, para além do currículo do artista, uma matéria cuidadosamente produzida na qual o homem Paulo Caruso antecede ao seu talento e ao seu denso memorial. Síntese é isso. E, em síntese, um artigo essencial. Parabéns!

Gustavo Angimahtz 9 de setembro de 2011 às 18:33

Maria Balé, em nome da equipe do VilaMundo eu agradeço seus elogios! Confira outras matérias publicadas no site para entender direitinho tudo o que acontece aqui na Vila Madalena e região! Abraços!