Bukassa: “O Brasil ainda não conhece a música africana”

Amanda Kamanchek em 27/04/11

Imagem: divulgação

Criado no Zaire, atual República do Congo, Bukassa vive no Brasil há mais de 30 anos.

Dono de uma fala calma, Bukassa sorri ao cantar com sua voz doce. Nascido na Bélgica e criado na República do Congo, ele veste uma túnica até os tornozelos e encanta com a “Pé na África”, uma festa que celebra a música e a cultura afro-brasileira há um ano no Espaço Urucum.

No palco, ele surpreende: dedilhados de guitarra congolesa, suingue brasileiro, dança afro e letras cantadas em dialetos africanos como o swahili e o tchiluba, em francês e português fazem o público suar, agitado pela banda Booka Mutoto.

Talento nato

Bukassa Kabengele, 41 anos, veio para o Brasil aos dez anos de idade acompanhando seu pai e quatro irmãos. “Meu pai, Kabenguele Munanga, é hoje professor titular de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).” Quando mudou para o Brasil ficou um ano e meio em Natal e, em seguida, a família veio para São Paulo e de cá nunca mais saiu.

“Sou apaixonado pela Vila Madalena. Eu digo, seguramente, que este é o lugar mais democrático de São Paulo. Há espaço para todas as classes sociais, numa movimentação que inclui tanto aquela pessoa que fica na calçada do bar bebendo com os amigos, quanto aquela que vai a um restaurante mais caro e sofisticado”, conta o africano que se naturalizou brasileiro.

Foi também em São Paulo que Booka, como foi apelidado, conheceu sua esposa, a portuguesa e artista plástica Vera Rocha, com quem teve uma filha, Muanza Maria, de quatro anos.

Conhecido por algumas participações em minisséries e filmes como “A Casa das Sete Mulheres”, “Mad Maria”, “JK”, “Carandiru” e “Mandrake” (HBO), Booka se dedica ainda a uma carreira musical de mais de 25 anos, tendo acompanhado Marisa Monte e Elba Ramalho em turnês internacionais.

Sempre teve como referência mestres como Gilberto Gil, Tim Maia e Cassiano e descobriu, já com certa maturidade, que a música africana o torna autêntico.

Música afro-brasileira

Como negro, sofreu muito preconceito nas terras tupiniquins. “O Brasil é um país machista e racista. Mas é o segundo no mundo com a maior população negra, fora a Nigéria, na África. A minha briga é para que o brasileiro reconheça a sua africanidade e a assuma.”

A primeira canção composta pela mistura de música brasileira com suingue do Congo, “Mutoto”, foi sucesso absoluto e uniu-se a uma série de outras composições, resultando no CD homônimo, lançado pela EMI-Odeon Francesa em 2005. Foram mais de 200 mil cópias vendidas em seis meses.

No vídeo abaixo, confira o clip da música “Mutoto”.

Imagem de Amostra do You Tube

“Quando vim para o Brasil, depois de uma temporada na França, comecei a abrir espaço para um novo mercado musical e a fazer contatos. Mudei de banda, investi milhares de reais e fui convencendo músico por músico, pois no começo, não havia onde tocar a música que eu faço”, conta.

Ele quebra a ideia que muitas pessoas têm da música africana, de que sua força está apenas nos tambores. Mostra uma música extremamente desenvolvida em sua harmonia e ritmo; revela no palco algumas influências do som africano no mundo, como em Cuba e no tango argentino.

Com o sucesso da festa “Pé na África” e vendo sua rede se expandir em parcerias com o Centro Cultural Africano e o Fórum África, Booka vai assumindo cada vez mais um papel social, um compromisso prático e decorrente do que ele expressa sendo músico ou ator. “Parece que o Universo está me empurrando para exercer esse papel social, para expandir os valores africanos”.

Um grande resultado desse esforço está prestes a nascer no dia 13 de maio. Trata-se do Instituto Sócio-Cultural Dolores África, uma parceria de Bukassa com o Dolores Bar – casa que há 16 anos toca black music.

O Dolores África, que também fica na Vila Madá, terá exposições de roupas e tecidos, formação e auxílio de imigrantes para a entrada no mercado profissional, DJs africanos, espaço da beleza negra, concursos, e, claro, muitos shows da banda militante Booka Mutoto.

Espaço Urucum
Festa Pé na África – 14 de maio, a partir das 21h.
R. Cardeal Arcoverde, 1.598, Vila Madalena, São Paulo – SP. Tel.: (11) 2309-7409.

Dolores África
R. Fradique Coutinho, 1.007, Vila Madalena, São Paulo – SP. Tel.: (11) 3812-6519.

Gostou desta notícia?
Assine aqui a newsletter do VilaMundo e receba o melhor da Vila Madalena no seu e-mail.

Notícias Relacionadas

Comentários (10)
Rita de Cassia 27 de abril de 2011 às 23:36

Parabéns. Essa matéria é perfeita. Isso tudo se resume nesse maravilhoso homem, ator, pai de familia, lindo, lindo Bukassa. Beijos.

Marina Dias 28 de abril de 2011 às 11:29

Fantástico. Parabéns a todos.

Ana Hilayali Sarantopoulos 28 de abril de 2011 às 11:45

Muito bom, interessante o som e o Bukassa é um vencedor. Vou vê-lo no Dolores África ou no Espaço Urucum. Delícia de pessoa que faz este trabalho social com o que ele tem de melhor: sua música e ritmo.

Helmy Mansur Manzochi 28 de abril de 2011 às 12:36

Muito bonito, você é lindo por dentro e por fora. Uma beijoca da Helmy pra Vera e Mwanza também.

Cea 28 de abril de 2011 às 22:34

A África constitue uma das matrizes formadoras da cultura brasileira e por isso mesmo merece ser conhecida, respeitada e ensinada aos brasilileiros. Creio que a proposta do compositor, cantor e ator Bukassa Kabengele, o Booka, é uma alternativa lúdica e descontraida para descobrir aspectos da complexa e diversificada música popular africana cujas raizes estão dentro de nós. Eu sou um dos frequentadores anônimos de seus shows nos espaços noturnos paulistas onde ele costuma, com sua banda Mutoto se apresentar. É um rítimo sinceiramente muito contagioso e irresistível aos corpos dançantes. Um comentarista anônimo.

Arnaldo Simões 29 de abril de 2011 às 1:20

Pessoa e profissional perfeitos! Parabéns! Abraços!

Gutemberg 29 de abril de 2011 às 10:08

Olá, parabéns. Belíssima apresentação. Gutemberg – Fotógrafo Centro Cultural Africano SP.

Fernando 30 de abril de 2011 às 2:50

Parabéns, talento e humildade. Estamos juntos.

Kelly 11 de maio de 2011 às 2:02

Oi Bukassa! Que bela matéria! Está a altura do seu trabalho! Parabéns! Fico muito feliz de termos conseguido fazer mais pessoas conhecerem esse som maravilhoso por ocasião de sua apresentação no Sesc. Beijo grande e axé!

Espaço Urucum recebe festa africana e comemora aniversário de Bukassa « vilamundo 1 de fevereiro de 2012 às 11:57

[...] a partir das 23h, o Espaço Urucum vai receber a festa “Pé na África”. O cantor Bukassa, também organizador do evento, vai comemorar seus 42 [...]