Exposição celebra o vivo legado de Louise Bourgeois
Mostra fica até o dia 28 de agosto no Tomie Ohtake; artista é das mais significativas de sua geração.
Você nunca encontrará a resposta certa se não fizer a pergunta adequada. É como tentar abrir uma porta com a chave errada. Não há nada errado com a chave, e não há nada errado com a porta. Algumas perguntas, é difícil demais responder. Algumas perguntas, não queremos fazer. E algumas, é impossível responder.
[Louise Bourgeois em "Destruição do Pai / Reconstrução do Pai"]
Louise Bourgeois vem de uma época em que os corpos ainda contavam, a seu favor, com uma importante – e singular – medida: o silêncio. Suas malhas de ferro, vidro, lã, aquarela, cor, linha, palavra e tantas outras materialidades são campos gravitacionais mergulhados em concentrados silêncios. A cada nova obra que o visitante tem a chance de conhecer ou reconhecer na exposição “O Retorno do Desejo Proibido”, em cartaz até o próximo dia 28 de agosto no Instituto Tomie Ohtake, diferentes paisagens cromáticas de densos sentimentos e interrogações são convocadas pelo mais elementar dos enfrentamentos: o das descobertas, o dos olhares.

Spider.
Diante de nós, Louise Bourgeois pode ser espaçosa, como na obra “Spider” [Aranha], agigantada, viscosa, envolvendo-nos simultaneamente por dentro e por fora. Nela o visitante conhece uma enorme escultura na forma do aracnídeo, com seus pés musculosos, torneados em bronze, e no seu centro, uma cela, uma gaiola, também uma arena, na qual a própria trama de ferro interdita a espontaneidade do olhar. Tem na obra ainda ossos, ovos de vidro, e cartazes descurados. Dos 112 trabalhos atualmente expostos, é o único que recebeu uma sala só para si, apartado de todos os outros. Na semiescuridão que lhe é propícia, e conforme está apresentada, resgatamos pelo visto o sentido vasto das digitais: quando esta palavra era sinônima de identidades, lidar com diferentes materiais e seus desígnios nominativos, como fez a escultora Louise Bourgeois, equivalia a manusear os pensamentos sentidos em tudo o que se havia para manipular: no seu caso, força, abandono, esquecimento, medo.
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Imagem: divulgação ![]() Fillete. |
Imagem: divulgação ![]() Sleep. |
O corpo que dança dispensa interpretações: saltitante feita uma deidade de vento e fogo, é assim que Denise Stoklos surge em cena no monólogo FAÇO, DESFAÇO, REFAÇO, inspirado nos diários de Louise Bourgeois – no Brasil publicados em 2001, em bem cuidada edição da editora Cosac&Naify sob o título “Desconstrução do Pai/Reconstrução do Pai“, volume que reúne seleção dos diários e também de entrevistas dadas ao longo das décadas de 20 até 90. Na peça, com duração aproximada de uma hora, a performer apresenta a artista em suas vigorosas contradições, tendo por tônica a incerteza e a recorrente inquietação, alternando momentos de confiança e temor, com uma encarnada alegria reluzente em sua dramaticidade particular. A atenção paterna, caracterizado como rigoroso, os conflitos experimentados em família na disputa pelo amor, o seu próprio nascimento num dia de Natal e o tempo de estudo passado com o mestre Léger compõem, ao lado de um cenário exclusivo para a peça – outra de suas células-jaulas, além de um grande espelho oval e uma escada – a tessitura amorosa de seus pensamentos, assistidos com detida avidez por uma plateia arrebatada. A peça cumpriu temporada em Nova Iorque em 2000, no Brasil em 2005 e agora foi apresentada dias 23 e 24 de julho em paralelo à exposição “O Retorno do Desejo Proibido”.
Louise Bourgeois pode ser pegajosa, impregnante, menos óbvia. Para ela, tudo é teatro. Então, este tudo, portantanto, nunca será qualquer coisa. Em famosa nota, num dos diários escritos por toda a vida desde os 12 anos de idade, a artista anotou: “Minha infância jamais perdeu sua magia, jamais perdeu seu mistério e jamais perdeu seu drama”. O vocabulário da artista é o do inocente (des)aparecimento – inocente, ainda que nunca ingênuo: para tanto, se faz pequininha, como no agigantado falo de bronze pendurado, exposto como tripas, descarnado, repulsivo e destacado no espaço da sala, regiamente nomeado Fillete [Menininha]. Ela também pode ser enorme, feito uma Alice de outro tempo, em que as realidades nunca cabem nas verdades, como chaves que jamais coincidem com as fechaduras: na provocativa “Sleep” [Sono] estamos diante aparentemente de uma glande de proporções superlativas que, seccionada do todo do qual naturalmente faz parte torna-se inútil, vazia, vibrando apenas a branca cor fria da pedra na qual é esculpida em seu repouso singular e permanente.
A certa altura de “A Paixão Segundo G.H.”, Clarice Lispector anotou: “A explicação de um enigma é a repetição do enigma”. Vinda de uma família de tecelãos, nascida em Paris no dia de Natal de 1911 e radicada em Nova Iorque desde 1938, tendo estudado em seu período de formação com Léger e convivido com artistas tão significativos quanto diversos como Duchamp, Miró, Warhol e Keith Haring, Bourgeois, morta em 31 de maio de 2010, aos 99 anos, legou problemas. De acordo com Alberto Ortenblad, um dos visitantes da exposição no começo da noite do dia 14 de julho, supreso com a quantidade de visitantes naquele momento, ele entre eles, observa: “É claro que o público da Bourgeois viria vê-la. Tá na cara que são eles, tá na cara que todos têm problemas!”. Por Bourgeois nomeiam-se enigmas que reverberam sua persistência ingênita em nós mesmos, como uma desconhecida resistência do corpo, um problema, a ponta de um iceberg perdido por dentro: o que se faz do tempo que ainda tenho? Como contá-lo? Como tê-lo para além do olor das palavras, do inebriante poder dos pensamentos? Qual atenção merece cabimento? E, sobretudo: em qual forma cabe?
Em sua complexidade própria, talvez convencida de que, como no famoso poema de Drummond, “Resíduo” e o seu mantra, “de tudo fica um pouco”, Bourgeois escultora de massas, geômetra das palavras, arquiteta em pensamento, inscreveu o seu bordão distintivo: faço, desfaço, refaço: ou, como imortalizou: “Do. Undo. Redo.”.
Além das obras de Louise Bourgeois, o visitante encontra também no Tomie Ohtake uma parte dedicada às anotações, desenhos e fotografias da artista. Nas fotos, todas apresentadas em P&B, Bourgeois surge normalmente acompanhada de personalidades das artes e da política – entre os retratos, há um do presidente Sarkozy no estúdio da artista, em Nova Iorque, em 2008, entregando-lhe uma distinção da Legião de Honra. Nos textos legados pela artista, fonte original de pesquisa para a atual exposição, é possível observar qual o planejamento espacial de sua escritura e a fusão da linha manuscrita mostradas em desenhos e representações gráficas.
O medo, paixão humana primordial, foi o ponto de chegada da fala desenvolvida por Eliane Robert Moraes, professora de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, em debate realizado no dia 9 de julho como parte da programação da exposição de Louise Bourgeois. Ao ressaltar o caráter labiríntico da obra da artista, Eliane Robert Moraes – que é também pesquisadora das relações entre literatura e erotismo –, procurou destacar a materialidade da resistência presente nos trabalhos e evidenciada na multiplicidade expressiva da matéria-prima empregada na feitura das obras. De acordo com ela, “no trabalho da artista, o clandestino, pulsa.”
Philip Larrat-Smith, curador da exposição, e Cecília Almeida Salles, doutora em Linguística Aplicada e professora titular em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo também discutiram o legado da artista no debate. Entre os aspectos de sua obra examinados durante a fala, foi lembrada a importância da depuração em seus procedimentos, ao eliminar o que não se quer para se alcançar a forma necessária. Em intervenção do público durante as perguntas, tal característica foi mencionada como um “desfazimento”, em que “se constrói destruindo muito, guardando-se o que podia ter sido possível”, segundo completou a professora Eliane Robert Moraes. A mediação esteve a cargo da pós-doutora em sociologia da cultura e da arte Maria Lúcia Bueno Ramos.














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