Abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo exibe highlights do cinema belga e francês

Flávio Aquistapace em 24/10/11

Leon Cakoff, fundador da Mostra, é homenageado na estreia do evento.

Imagem: divulgação / Mario Miranda

A abertura aconteceu no Auditório Ibirapuera.

Ao reabrir das cortinas do Auditório Ibirapuera na última quinta-feira (20), durante a cerimônia de estreia da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – evento que acontece em mais de 20 espaços da cidade, inclusive no Cine Sabesp, na Vila Madalena –, o auditório repleto foi invadido, após o silêncio durante a exibição dos créditos, por sons eletrônicos graves, numa trilha espacial épica e também lisérgica, composta pelo duo francês de músicos do AIR, como acompanhamento especialmente feito para a versão restaurada do curta-metragem mudo “Viagem à Lua”.

O filme, um marco inaugural do cinema, realizado em 1902 por Georges Méliès (1861 – 1938), está sendo reexibido como parte da programação. Tamanho o engenho da obra que, entre outros feitos, compõe hoje parte do acervo do Georges Pompidou, centro cultural localizado em Paris e dedicado à masterpieces da arte moderna e contemporânea.

Veja o vídeo oficial da abertura aqui.
Um presente espetacular, uma joia aos filiados ao melhor do que o cinema é capaz de legar. Exibida no teto da Oca em 2000, durante exposição do acervo do Pompidou em São Paulo, a nova versão do filmete poderá ser revista nas seções da Mostra acompanhada de outro clássico, o “La Dolce Vita”, do Fellini (1920 – 1993). Oportunidade e tanto de reencontrar Méliès, agora numa inédita concepção colorida, o que lhe confere um caráter renovado e, talvez, ainda mais anárquico do que já é.

A trama é simples: uma trupe amalucada constrói uma cápsula capaz de levá-los à lua, onde serão confrontados com um exército de diabetes contorcionistas. Enquanto os irmãos Lumière (1862 – 1954/1864 – 1948) inauguraram o cinema documental, com a famosa chegada do trem à estação, Méliès conferiu ao cinema o primeiro fundamento do que poderíamos explorar a partir da industriosa inventividade contida na vontade de ver.

Cinema Sensorial
Imagem: divulgação

Cena de “O Garoto da Bicicleta” dos irmãos Dardenne.

O filme seguinte, escolhido para a ocasião solene foi o belga “O Garoto da Bicicleta” (grande prêmio do Júri em Cannes), a nova produção dos irmãos Dardenne (vencedores da Palma de Ouro em 1999 e 2005). O filme mostra uma criança, o jovem Cyril, aos 11 anos, em busca do pai. Mas este é só o começo da história e logo o assunto se resolve, lá pelos 20 minutos iniciais do filme – cuja duração total é de aproximadamente 90.

Como em outras tramas dos cineastas belgas, são muitas as reviravoltas ao longo do percurso, numa sucessão célere de acontecimentos. Ainda nas primeiras sequências, ao tentar fugir do internato em que vive, desesperado em reencontrar o pai, Cyril agarra-se literalmente à Samantha, uma cabeleireira solidária que logo se torna sua tutora. Em larga medida, Cyril permanece indômito, um corpo rebelde incapaz de se submeter a qualquer comando, animado pela sua alta voltagem pulsional, concentrado em toda sua revolta: contra o abandono, contra a consciência da sua própria solidão. Na falta de um pai, obstinado em ser amado e simultaneamente instado a descobrir por si mesmo outras linguagens para o amor, inventa para si o caminho sinuoso que passa ora pelo conformismo, ora pela transgressão, inquieto e descontente em ser criança, em ser filho, em ser amigo dos outros da sua idade, em ser acolhido, porque o corpo clama, e é do calor que ele precisa.

Numa das passagens mais tocantes, após mais um enfrentamento, Samantha o abraça – ele não –, pergunta se está tudo bem, e Ciryl responde que pode sentir o calor da sua respiração sobre a sua pele. É talvez transformação o bastante para se sentir vivo – muito embora outras tantas peripécias precisem ser cruzadas antes de se estar certo disso.

Cakoff

O filme foi o terceiro da noite. As projeções iniciaram com um curta com depoimentos de Leon Cakoff (1948 – 2011), morto uma semana antes, acometido de câncer, contando da importância da Mostra, surgida numa época de isolamento político-cultural decorrente da ditadura militar. A seguir, vieram os discursos de homenagem. Primeiro de sua mulher, Renata de Almeida, visivelmente emocionada.

No Cine Sabesp

A programação da Mostra de Cinema, bastante diversa, guarda muitas surpresas e encontros com a produção contemporânea e também com os clássicos consagrados de outras épocas – nesta edição, além de Elia Kazan, “Táxi Driver”, de Scorcese, “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick (1928 – 1999), e “O Leopardo”, de Luchino Visconti (1906 – 1972) serão exibidos.

A seguir, três apostas em exibição no Cine Sabesp.

“Era uma vez… Laranja Mecânica”
“Pater”
O dia em que ele chegar

Depois dos patrocinadores, parceiros e do Estado, representado pelo prefeito Gilberto Kassab, o secretário municipal de Cultura Carlos Calil, além de Manoel Rangel, diretor presidente da Agência Nacional de Cinema. Também esteve presente Frances Kazan, viúva de Elia Kazan (1909 – 1923), cineasta homenageado com uma retrospectiva na Mostra.

As falas reiteraram de forma unânime a importância do evento para estabelecimento da vida cultural autônoma da cidade. Serginho Groisman acompanhou Renata de Almeida e apresentou um discurso bastante emotivo, antes de chamar ao palco os mestres de cerimônias Marina Person e Rubens Ewald Filho. Adriano Cândido Stringhini, superintendente de comunicação da Sabesp – cuja sala de projeção localiza-se na Vila Madalena – lembrou, durante o seu discurso, da ação educativa promovida no local, quando o cinema é apresentado e assistido pela primeira vez por muitas crianças.

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