Agentes comunitárias trabalham pela saúde do bairro
Todo morador ou até mesmo visitante do bairro da Vila Madalena já esbarrou com um agente comunitário de saúde por aí (sim, aqueles que usam um colete azulzinho). Mas pouco se fala sobre a importância do trabalho destes profissionais. Por isso, o VilaMundo foi descobrir as maravilhas e dificuldades dessa função.

Ilda Okamura Palamin, 65 anos. Agente há quatro.
“Vi um anúncio da vaga no mural do meu prédio, aí meu filho falou: ‘Mamãe, é a sua cara, vai lá que deve ser bom’. Eu nem sabia o que significava ser uma agente de saúde. Como estava há algum tempo sem trabalhar, me candidatei para a vaga.”
Foi assim, sem saber no que ia dar, que Ilda Okamura Pallamin, 65 anos, se tornou agente comunitária de saúde, e isso já faz quatro anos. É o caso também de Elisabete Diniz, 47, que viu o aviso da vaga na Unidade Básica de Saúde – UBS de Pinheiros quando ia marcar uma consulta.
Os agentes comunitários de saúde trabalham no programa “Saúde da Família” do Ministério da Saúde. Estes profissionais são o elo entre a UBS e a comunidade atendida. Estão em contato permanente com as famílias, o que facilita o trabalho de vigilância e promoção da saúde, realizado por toda a equipe do posto.
Eles são profissionais da saúde que acompanham de perto a vida do paciente. As pessoas tendem a ficar tensas em consultas, e quando saem podem não se lembrar de tudo o que o médico falou. Ilda e Elisabete vão à casa do paciente para revisar as orientações do médico, explicam para que serve cada remédio e ajudam na organização da rotina para que não esqueçam de tomar a medicação.
Também trabalham para que hábitos que podem prejudicar a saúde sejam abolidos. Tiveram vitória em muitos casos. Elisabete nos contou um: “Durante quase dez anos tentamos mudar a realidade de uma casa em que a família tinha mania de guardar entulhos, a casa era um cubículo. Conseguimos convencê-los de jogar o lixo fora e hoje a casa tem dois dormitórios!”.
Mas além de realizar o trabalho de prevenção de doenças, ajudam também a identificar equipamentos de utilidade pública disponíveis no bairro, como escolas, centros de juventude, espaços culturais, e associações. E tudo isso, para toda a família. Faz parte do papel do agente de saúde fazer um trabalho de articulação comunitária.
Mudando realidades
Há, no entanto, momentos mais difíceis. O “agente” tem que ter muita “resiliência” como diz Elisabete. ”Um dia de glória para um dos agentes também pode ter sido um péssimo dia para mim. Para manter a motivação, temos que escutar o outro e vibrar junto com ele”.
As duas são conhecidas por todos na comunidade de moradores da Vila Madalena. “Quem não conhece a gente pelo nome, grita: ‘ô azulzinho, ô da saúde!’. Mas em geral somos chamadas pelo nome mesmo; às vezes pelo nome errado, mas tudo bem”, diz Ilda sorrindo.
Heroínas urbanas
De tempos em tempos, todos agentes trocam sua micro área de atuação, o que significa que, com tantos anos de trabalho, Ilda e Elizabete já perderam as contas de quantas famílias já atenderam ou de quantas casas visitaram.
Vale lembrar, que os agentes comunitários de saúde devem morar na área em que atuam. Como membros da comunidade, proporcionam mais confiança para os atendidos. Elisabete e Ilda criaram fortes vínculos com as famílias. Realidades que muitas vezes estão escondidas e que provavelmente não chegariam até a unidade de saúde são identificadas por elas.
Ao fazer o cadastro no posto requisitando a visita de um agente, o paciente conta sobre suas necessidades e informa sobre possíveis doenças crônicas. “Podem até não contar tudo num primeiro momento, mas a partir das visitas mensais, se cria uma confiança e acabamos descobrindo. Podem não ser situações fáceis de intervir, mas com o trabalho da equipe é possível melhorar a qualidade de vida dessas pessoas”, diz Ilda.
1: Verifique qual Unidade Básica de Saúde atende a região onde você mora;
2: Se a sua UBS fizer parte da Estratégia “Saúde da Família” solicite um cadastro;
3: Uma agente de saúde irá na sua casa para saber todos os dados da sua família.
Não há critérios para fazer parte, qualquer família pode ser atendida.
A entrada das duas nas casas se dá de maneira lenta e gradual. A cada visita, conquistam um membro da família. No primeiro dia, podem chegar e o filho não estar em casa, mas depois o encontram com a mãe na rua e fazem algumas perguntas. “Nossa relação vai além do ‘vim saber como vocês estão’ ou ‘vim checar se a senhora está tomando o remédio direitinho’, é muito mais que isso”, orgulha-se Ilda.
“Há dez anos, quando eu comecei na função, as pessoas não conheciam nosso trabalho, então íamos de porta em porta fazendo os cadastros dos pacientes. Hoje já não é mais assim, acompanhamos o paciente que solicita o serviço na UBS”, explica Elisabete.
As duas profissionais ressaltam a importância do trabalho em equipe da UBS. “Quando entramos em uma casa para realizar o cadastro, é importante que as pessoas saibam que atrás de nós há todo um grupo de pessoas formado por médico, enfermeiro e psicólogo. Não resolvemos os problemas sozinhas, mas a equipe pode resolver.”
24h
Na UBS Dr. Manoel Joaquim Pera, em Pinheiros, não existem médicos especialistas. Os profissionais são médicos de família, os chamados generalistas. A Unidade conta com 24 agentes de saúde, apenas um deles é homem.
Nada de monotonia no trabalho das duas. Elas nunca saem de casa sabendo o que vão fazer no dia, conta Elisabete: “Às vezes, a gente prevê fazer uma orientação e neste dia, o paciente quer desabafar. É ele quem comanda a visita. E muitas vezes, é através do desabafo que fazemos um diagnóstico”.
Para o paciente é um momento muito importante, a maioria pára tudo o que tudo que está fazendo para recebê-las, são tratadas como verdadeiras visitas. “E tem mais: se você toma um café na casa de um e não tomar na casa do vizinho ele pode ficar bravo”, contam.

“Às vezes, a gente prevê fazer uma orientação e neste dia, o paciente quer desabafar. É ele quem comanda a visita. E muitas vezes, é através do desabafo que fazemos um diagnóstico.”
Mesmo nos fins de semana, quando estão sem o colete, são abordadas por pacientes para conversar. Perguntamos: Isso é um problema? As duas afirmam categoricamente que não, e revelam que até gostam. Quem não concorda muito com isso é o filho de Ilda. “Mas ele tem que aguentar, afinal foi ele quem me incentivou”, brinca.
Nos primeiros anos como agente, Elisabete, tratava de um bairro com um perfil diferente do de hoje. “A Vila mudou muito em dez anos; a rua Madalena, por exemplo, era cheia de cortiços e nosso trabalho era intenso lá. Eram principalmente idosos com idades maravilhosas como 80, 90 anos…”.
Muitos desses idosos cuidados por Elisabete já morreram. A perda foi apontada por ambas como uma das coisas mais complicadas com a qual têm que lidar sempre.
Hoje, o perfil de moradores mudou, e há muitos jovens que escolheram a Vila como bairro para morar. Mas com uma característica peculiar: eles têm poucos filhos. “No condomínio Natingui (conhecido como BNH), que reúne cerca de 50 prédios, nunca nasce uma criança”, brinca Elizabete. “Na minha micro área, num universo de quase 500 pessoas, eu só tenho duas gestantes”, completa Ilda.
Outra parcela atendida é composta por queles que passam a maior parte do tempo no bairro, mas não moram por aqui. Eles não têm cadastro na UBS, mas quando sofrem um acidente de trabalho, por exemplo, são atendidos mesmo assim. As grávidas de outras localidades mas que trabalham aqui são as únicas que têm cadastro no programa. “Cuidamos de uma empregada na Virgílio de Carvalho Pinto. Depois que ela teve o bebê, deixou o emprego. Um belo dia ela o trouxe na minha casa para eu conhecer”, conta Ilda, emocionada.
As duas agentes têm o sonho de escrever um livro com todas essas histórias depois que se aposentarem. Enquanto isso não acontece, o VilaMundo vai contando algumas delas aqui.










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