Bairros de São Paulo se unem contra a verticalização desenfreada

da Redação em 21/08/12

Créditos: Gustavo Angimahtz

Lançamentos imobiliários.

Em dezembro do ano passado, o VilaMundo publicou uma matéria sobre o surgimento do “Movimento Todos pela Vila”, que reivindica o tombamento de parte do bairro como patrimônio histórico. Membros do movimento afirmam que os novos empreendimentos estão tirando o que a Vila Madalena tem de mais interessante: as pequenas casas que abrigam ateliês.

O grupo “Moradores de Pinheiros contra a verticalização do bairro” também discute as mudanças urbanísticas da região. Este ano promoveu a “passeada”, uma manifestação divertida que exigia a extinção de novos empreendimentos. Além disso, elaboraram um abaixo-assinado reivindicando a construção do “Parque Pinheiros”.

Atento ao que acontece na cidade, o VilaMundo identificou outros grupos de moradores que estão insatisfeitos com a falta de planejamento urbano e o surgimento de empreendimentos imobiliários que não levam em conta traços históricos da cidade. Todos os movimentos têm uma coisa em comum: o uso das redes sociais para espalhar mensagens, angariar simpatizantes e organizar, virtualmente, manifestações presenciais.

Na opinião do arquiteto Luis Espallargas Gimenez , doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), “adensar é o mais adequado do ponto de vista da sustentabilidade”.  Segundo ele, a maneira como se verticaliza atualmente favorece apenas o mercado imobiliário. Ele defende que os edifícios altos sejam apenas aprovados em áreas controladas e especiais, com transporte público de massa e áreas verdes.

“Em tempos de eleições, os políticos estão sensíveis às reivindicações e costumam fazer promessas contraditórias”, alerta.

Butantã
Créditos: divulgação

Parque da Previdência: área de 91.500m².

O grupo “Moradores do Butantã contra a verticalização predatória” inspirou-se no movimento aqui de Pinheiros para criar suas ações. Comunicam-se por meio de uma lista virtual de discussão no Facebook e reúnem-se presencialmente todos os meses.

Assim como a Vila Madalena, o bairro do Butantã, na zona oeste da cidade, tem algumas características peculiares: está próximo da Universidade de São Paulo (USP), muitos moradores são artistas, arquitetos ou ligados ao IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).

Um das reivindicações dos integrantes é a preservação do Parque da Previdência (localizado à rua Pedro Peccinini, 88 – Jd. Previdência) e de seu entorno. “O parque foi planejado há 50 anos e tem uma grande história. É uma área remanescente de Mata Atlântica”, defendo Sérgio Reze, músico e integrante da Rede Butantã de Entidades e Forças Sociais.

A avenida Eliseu de Almeida também espera ações da Prefeitura. Há mais de quatro anos existe um projeto de uma ciclovia que ainda não foi implantada. Outro ponto de preocupação para os moradores é a Rodovia Raposo Tavares. “Há muitos empreendimentos sendo aprovados nessa região e o trânsito está ficando insuportável. Na minha opinião, a solução é a melhoria do transporte coletivo”.

Vila Pompéia

Na Pompéia também nasceu um grupo com o mesmo objetivo. O Moradores da Vila Pompéia contra a verticalização nasceu em 2006 e a discussão foi para o Facebook ano passado. Por lá, as reinvindicações não se diferem dos outros bairros.

O fotógrafo Paulo Preto, um dos integrantes, explica que o grupo é contra o modelo de verticalização que está se estabelecendo em São Paulo. Por outro lado, prezam pela abertura da Prefeitura nos processos de decisão e aprovação de obras. “Essa gestão cortou a possibilidade de discutir”, avalia.

Os participantes pretendem atrair urbanistas da região para que as ações tenham mais alcance.

Um dos candidatos à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad (PT), recebeu as reinvindicações do grupo. “Todos os candidatos deviam prestar atenção no que estamos discutindo, mas parte do dinheiro usado nas campanhas de políticos vem das construtoras”, critica Paulo Preto.

Outras fontes de preocupação para quem mora na Vila Pompéia  são o viaduto Pompéia, suas obras e enchentes, e ainda o shopping Pompeia Nobre, devido ao trânsito. Em julho deste ano, a Prefeitura divulgou um balanço dos shoppings em situação irregular. O Pompéia figura na lista como um dos que estão com a documentação incompleta.

Em breve, os moradores da Vila Pompeia poderão participar de um passeio monitorado pelos integrantes do movimento. A intenção é que tenham um olhar crítico em relação às construções.

Aclimação
Créditos: divulgação

Reunião de moradores.

“Quando comecei a atuar como conselheira do Parque da Aclimação, em 2010, notei que os problemas do bairro estavam ligados ao parque” diz Eliana Alves, advogada e moradora da região.

A partir daí, ela resolveu unir moradores e criar o movimento “Acorda Aclimação. Não à verticalização!”.  Eles pretendem fundar um associação de moradores, mas enquanto isso não acontece, mantêm um grupo de discussão no Facebook e promovem encontros mensais.

Atualmente, o Parque da Aclimação é tombado e qualquer construção só pode ser feita em um raio maior de 300 metros.

A advogada afirma que já tomou várias medidas para embargar obras que estão sendo construídas no entorno do Parque e que tinham autorizações irregulares. “Um quarteirão foi praticamente inteiro demolido para a construção de prédios”, relata. “A gente ‘vai em cima’ com base nas autorizações que vão sendo concedidas.”

Uma das pretensões do movimento é a elaboração de um Plano de Bairro, parecido com o que está sendo desenvolvido na Vila Madalena. Porém, segundo ela, a realidade é outra, uma vez que é difícil unir pessoas que tenham conhecimento sobre o assunto e que estejam engajadas. “Eu acredito que os instrumentos mais adequados para gerir a cidade são os participativos. O próprio tombamento do Parque foi resultado da união de cidadãos descontentes”, destaca.

O que é o Plano de Bairro
Instrumento de planejamento urbano de escala local previsto pela lei Municipal de 2004.

Sobre o ano eleitoral e o interesse dos candidatos na temática, Eliana afirma: “Estamos sendo ignorados porque incomodamos. Alguns assessores de candidatos nos procuraram, e eu até fui convidada para participar de reuniões, mas somos um movimento totalmente apartidário.”

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Comentários (1)
“O modelo atual de verticalização favorece apenas o negócio imobiliário”, afirma arquiteto da USP « vilamundo 21 de agosto de 2012 às 21:36

[...] Todos os movimentos têm uma coisa em comum: o uso das redes sociais para espalhar mensagens, angariar simpatizantes e organizar, virtualmente, manifestações presenciais. Conheça alguns destes grupos aqui. [...]